UTI Parte I – Saindo do hospital sem bebê nos braços e os longos dias na UTI Neonatal

Passado a correria do parto, fui pro quarto, jantei bem gostosinho e fiquei papeando com o marido que estava super abatido.
Eu até então estava super tranquila. Pra mim o Pedro estava apenas cansado como o médico havia me dito.
Mas quando foi umas 23:30, a enfermeira ligou no quarto e disse que eu poderia ir até o sexto andar ver meu filho.

Chegando no sexto andar, uma porta gigante com um interfone.
Sinto coisas só de lembrar do barulho daquela campainha. (Tenho certeza que qualquer mãe que passou por aquela porta da UTI sente coisas só de ouvir a campainha ou lembrar…)

Entrei e me levaram até a ala 1 da UTI Neonatal.
Só pra vocês entenderem, a UTI é dividida por alas, que até então ia de 1 a 8.
A ala 1 ficavam os bebês mais críticos e conforme iram melhorando iram sendo promovidos…

Antes de entrar em qualquer ala, temos todo um procedimento de higienização das mãos e depois passar álcool nas mãos.
O Ednaldo me acompanhou até a porta e de lá eu fui sozinha, ele não quis entrar comigo.
Talvez tenha ficado com medo da minha reação ao ver o Pedro, sei lá.

Assim que cheguei ao bercinho onde estava o Pedro, eu vi um bebê enorme, gordinho, todo entubado, braço furado, pé furado, cheio de fios colados ao corpo, dormindo…
Eu colocava a mão nele e ele estava gelado.
A primeira enfermeira que falou comigo, bem serena e sorrindo, me disse: -Ele é bravo heim…

Acho que fiquei só uns 5 minutos ali, eu não tinha muito o que fazer, a enfermeira também não podia me falar muita coisa e ele estava sedado.

Voltei para o meu quarto e finalmente consegui dormir e descansar (acreditem, eu consegui).
Mesmo vendo meu filho naquela situação, eu consegui me manter centrada, tranquila, os médicos estavam trabalhando e não dependia de mim!

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Pedro e Papai: Força!

No dia seguinte, fui lá pra UTI ver o Pedro e o Dr Allan veio falar comigo.
Disse que o Pedro estava em um procedimento de hipotermia, que teríamos que aguardar as primeiras 72 horas em que ele ficaria sedado, aos poucos eles tirariam a medicação e teriamos que aguardar ele acordar. SE ele acordasse.
E ainda foi bem claro quando me disse que de 7 bebês que passam por este procedimento, UM sai totalmente sem sequelas.

Sobre o tratamento de hipotermia, tirado do site do Hospital São Luiz:

A UTI Neonatal do São Luiz adota, desde 2008, o Protocolo de Hipotermia Neuroprotetora em recém-nascidos com quadros de asfixia moderada ou grave para reduzir chances de sequelas neurológicas, uma das pioneiras nesse tipo de terapêutica no Brasil.
A hipotermia terapêutica é uma técnica utilizada pelos médicos caracterizada pela diminuição da temperatura corpórea do recém-nascido, atingindo níveis em torno de 34ºC. O procedimento diminui o metabolismo cerebral e, com isso, reduz-se um processo iniciado imediatamente após a falta de oxigenação e que leva à morte dos neurônios, ocasionando graves e irreversíveis danos neurológicos.
O tratamento é iniciado em até 6 horas após o nascimento e, enquanto a temperatura corporal é reduzida, há constante monitoramento dos sistemas neurológico e cardiorrespiratório. Segundo a neonatologista Graziela Lopes Del Ben, do Hospital e Maternidade São Luiz, ela é “utilizada e eficaz em casos de asfixia perinatal, mais precisamente nos casos de diminuição no fluxo sanguíneo cerebral e da oxigenação ao nível do sistema nervoso”.

Com o resfriamento, a atividade metabólica também diminui. O cérebro passa a consumir menos oxigênio, os batimentos cardíacos diminuem e o corpo entra numa espécie de hibernação. Como consequência, há uma “atenuação da lesão cerebral e a diminuição, a longo prazo, das sequelas neurológicas”, afirma a médica.

Os resultados benéficos da hipotermia têm sido comprovados em pesquisas. Estudos internacionais comprovam que houve diminuição em 24% do índice de mortalidade em bebês vítimas da asfixia, além da redução de 30% para 19% das sequelas neurológicas aos 18 meses de idade. “

Saí da UTI meio desnorteada, virei pro Ednaldo e falei: -Pedro vai ser esse UM que sai totalmente sem sequelas.
Estávamos meio perdidos, nem sabíamos direito o que conversarmos, eu estava confiante, até cheguei a pesquisar algumas coisas sobre o que houve com o Pedro, mas parei, porque só via desgraça e não era o momento de eu ficar me remoendo com isso.

Meu médico então passou para me ver e disse que havia ido lá ver o Pedro e que a situação dele era bem grave e que tinhamos que orar muito.
Pensa, um médico dizendo que deveríamos orar muito.

E assim foram os meus dias enquanto fiquei internada.
Recebi muitas visitas, mas achei um tanto quanto estranho receber visitas e não ter bebê para mostrar.
A grande maioria surpresos com a minha recuperação super rápida por conta do parto normal.

Fiquei internada 4 dias.
Nos 3 primeiros dias, nós subíamos na UTI mas não tinha o que ser feito a não ser apenas olhar, pois ele estava sedado né??
Um dia antes de eu ter alta, assim que as visitas foram embora no último horário, senti meus peitos inchados, quentes e mega doloridos.
O leite desceu. Chamei a enfermeira que me trouxe 2 luvas com água fresca para colocar dentro do sutiã, e me orientou no dia seguinte, ás 09:00, ir para o lactário para a ordenha.
Isso mesmo gente, kkkkkkkkkkkkkk, ordenha!!!

No dia seguinte pela manhã fui ao lactário onde a enfermeira Marcela me passou todas as orientações, de higiene, como proceder, como usar a máquina de ordenha.
Tudo rigorosamente limpo, para entrar, somente com máscaras, avental, touca….

E lá fui eu tirar leite pela primeira vez.
Sensação estranha, aquela maquininha sugando, o leite espirrando na garrafinha…
Tirei 1 frasquinho de 150ml, só pra começar e aprender a ordenhar.

O lactário é uma coisa de louco.
Um monte de mulheres, na mesma situação, com seus bebês na UTI, com o peito de fora, ordenhando e batendo papo, rindo e falando besteiras.
A situação de todas é muito difícil, cada um encara de um jeito, quem nos visse ali com certeza diriam que eramos insensíveis…
Mas precisávamos dessa descontração, desse momento nosso, algumas choravam, desabafavam.
Era uma apoiando a outra, rindo ou chorando, mas na maioria das vezes, de bom humor para passar boas energias uma a outra.

Perto das 13 horas, recebi alta, mas foi apenas para tirar as coisas do quarto e levar pro carro, pois eu continuei no hospital, aguardando os horários de visitas e também para tirar o leite.
Aguardamos no hospital até ás 21:00 que era o último horário de amamentar, mas nesse horário eu não tirei o leite, fiquei apenas aguardando o horário para falar com o médico.

O silencio era ensurdecedor dentro do carro, entrar no hospital para ter o seu filho e sair de lá SEM o seu filho, é um tanto quanto frustrante. Nem eu e nem o Ednaldo trocamos uma palavra.
Passamos 3 dias recebendo visitas sem poder mostrar nosso filho as pessoas e agora, voltar pra casa sem ele.

Gente, quando eu cheguei em casa, meus peitos pareciam que eram de silicone. ENORMES! LINDOS, porém doloridos ao extremo.
Era muita dor, sem ao menos encostar, então corri para pegar o tira leite que a Lúcia, minha cunhada, havia me dado, mas para o meu desespero, não tinha a garrafinha!
Sei que Ednaldo saiu umas 23:30 pra rua, para achar a garrafinha do tira leite, e eu debaixo do chuveiro, chorando horrores de dor.
Enquanto eu estava no banho, ele chegou e corri sair do banho para a ordenha.
Gente que alívio, eu lembro que tirei o leite, o meu cansaço era tanto, mas tanto que do jeito que eu saí do banho, apenas tirei o leite e já dormi, peladona mesmo. kkkkkkkkkkkk

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E no dia seguinte, a visita do médico seria as 10:00, Pedro estava saindo do procedimento de hipotermia e já estava quentinho, já tinha ido para a incubadora, porém tinhamos que aguardar o efeito da medicação acabar para ele acordar. SE ele fosse acordar né…
Continuava entubado, com fios pelo corpo, pé furado, braço furado… mas pelo menos estava quentinho.

Com ele na incubadora eu já me senti um pouco mais a vontade de começar a tirar fotos.

Como podem observar na foto, Pedro ainda estava sedado, mas já segurava nossos dedos com a mãozinha minúscula.

Engraçado que enquanto eu estava no hospital eu estava super bem.
Mas foi só sair do hospital e os meus problemas do pós parto começaram.
Não fiz repouso devido (mãe de UTI não sabe o que é repousar para se recuperar).
E aí me perguntam: Mas não foi parto normal?
Sim, foi parto normal, porém foi feito a Espisiotomia (o famoso corte na pepeca) e levei pontos na pepeca né???
E aquele anda pra cá, anda pra lá, ficar sentada na poltrona na salinha das mães, e a noite, começou uma dor dos infernos…
Mas isso, fica para o próximo post.
A minha recuperação!

E já adiantando: Muita gente veio me falar que eu tinha que processar o médico por causa desse corte.
Processar nada!!!
Se não fosse o corte, Pedro teria me rasgado toda e talvez nem tivesse ido para a UTI, poderia ter morrido ali mesmo, pois sendo meu filho e do Ednaldo, a cabeça era avantajada… faltou oxigênio com o corte, imagina sem?

Enfim, agora o meu tão sofrido pós parto, fica para  o próximo post.

 

Parto Normal ou Cesárea… Qual foi a minha escolha?

Desde que me entendo por gente, mesmo nunca pensando em ter filhos, nunca passou pela minha cabeça o parto normal.
Os meses foram passando e o médico me dizendo que deu poderia fazer o parto normal tranquilamente e ainda fez uma observação: -Cris, eu sei fazer parto normal viu???
HAHAHAHAHAHAHAHAHA, nunca passou pela minha cabeça isso, se o médico sabe ou não sabe.
Era uma questão de escolhas mesmo.

Eu sei que no final da gravidez, por volta de 33 semanas, fui algumas vezes pro hospital, todas elas achando que seria aquele dia!!!
Inicialmente, meu parto estava previsto para até o dia 07/12.
Depois, mudou para o dia 23/11.
Por fim, batemos o martelo, faríamos a cirurgia no dia 18/11.
Até que no dia 08/11 eu passei mal, nem lembro o que havia acontecido, que eu fui pro hospital e nós estávamos convencidos que seria naquele dia.

E então o médico entrou e perguntou: -Você está bem, o bebê também, já falei com seu médico e vou te liberar! Não vai nascer hoje. Você quer parto normal ou…
Eu: -Cesárea!!
Ele me olhou meio de lado e disse: -Não sei não heim mãe, do jeito que tá, tem tudo pra ser parto normal!
Eu: -Ai não… essa mulher aí ao lado me assustou
Ele saiu e a enfermeira me falou: -Seguinte, orientais são bem mais resistente a dores, então se você sentir o mínimo de cólica já corre pro hospital. Se tiver trânsito, chama a polícia que a viatura vai abrindo o caminho pra você.

Iphone 1115No dia seguinte, participei do chá de fraldas do Raul, comi feito louca (era churrasco).
No domingo eu tinha um outro chá de fraldas, mas o calor era insuportável, eu com aquela barriga…
Fiquei em casa o dia todo, andando pelada pela casa, fechei todas as janelas pra não entrar nenhum raio de sol que pudesse esquentar qualquer coisa e fiquei deitada na cama, no escuro.

 

A noite, eu tava empanturrada do churrasco do chá de fraldas do Raul, fazia pelo menos uma semana que eu não cagava.
Fui lá e tomei 2 colheres de Tamarine (devidamente orientada pelo médico no começo da gravidez).
Não dormi de madrugada e desabafei no face:

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Por volta de 4:30 da manhã, senti uma colicazinha e fui ao banheiro. Que alívio, o Tamarine estava fazendo efeito.
Ednaldo acordou umas 06:00 pra ir trabalhar e nisso eu já tinha perdido as contas de quantas vezes havia ido ao banheiro.
Lembrei da enfermeira me falando sobre a cólica, mas não quis falar nada pro Ednaldo porque ele já tinha faltado várias vezes ao trabalho por conta dos alarmes falsos.

Quando deu umas 11:00 o Dr Alexandre viu o meu desabafo no face, me ligou e falou: -Pensa rápido. Quer fazer a cirurgia hoje?
Não pensei duas vezes e respondi: -QUERO!!!
Então ele me orientou a tomar meu último copo de água e entrar em jejum e já ir para o hospital.
Daí eu falei: -Eu estou com um pouco e cólica!
Ele: -Tudo bem… vai pro hospital e lá conversamos.

Gente que desespero.
O Tamarine atrapalhou tudo, pois eu estava em trabalho de parto mas achei que era o efeito do laxante!!!!

Iphone 1136Chegamos ao hospital, fui andando normalmente e o Ednaldo foi estacionar o carro.
Passei pela recepção e expliquei a situação
Fui direto pra emergência sem fazer ficha nenhuma.
Então vieram fazer o exame de toque e a enfermeira gritou: -Dilatação total!
Quando vi, tinha uma tirando meu sapato, outra meu relógio, outra minha roupa (sim, tinha uma galera me rodeando) e já me colocando o jaleco e já me levando pro centro cirúrgico.
Encontrei meu marido quase na porta do elevador, subimos eu, enfermeiras, médico e o Ednaldo.
Eu chorava e implorava pela anestesia.

Não, não dava tempo do meu médico chegar e o médico que me atendeu na sexta feira dizendo que as chances de eu ter parto normal eram grandes, iria fazer o meu parto

Chegando no centro cirúrgico na hora de passar pra maca, a enfermeira me fala: -Vai devagarzinho se não o bebê nasce.
E eu: -Me dá uma anestesia pelo amor de Deeeeeeeeeeeeus!!!

Foi tudo muito rápido, as pessoas falavam comigo mas eu não processava nada.
Até que levei a picadinha na coluna e tudo ficou bem.
Minha cesárea??? Que cesárea???
Sim, eu não tive escolha e não dava mais tempo.
O médico falava: -Faz força…
O Pedro não saía…
E o médico falava: -Mais força, vai que ele tá vindo.
Só sei que Ednaldo levantando minhas costas pra ajudar a empurrar o bebê e a enfermeira empurrando com a mão.

Iphone 1143Nasceu!!! Nasceu e eu não ouvia o choro e falava: -Porque ele não chora??
O médico disse: -Calma, ele só nasceu cansado.
Sei que entre pediatra e enfermeiras, tinha umas 4 ou 5 pessoas, eu não conseguia ver nada do que acontecia, tinha um pano em cima das minhas pernas que me impedia de ver. (o pai fotografou esse momento)
De repente entrou a incubadora e de longe eu vi o Pedro.
A enfermeira trouxe ele perto de mim e disse que ia ficar tudo bem e o médico repetiu dizendo que ele estava cansado por conta do parto normal.

Por fim, fiquei sozinha no centro cirúrgico com uma enfermeira que estava fazendo a minha ficha, já que entrei direto pra emergência.
Nisso o meu médico chegou, com uma cara não muito boa, disse que queria muito ter feito o parto e ficou me fazendo companhia até alguém me levar pro pós operatório.

Gente, dei entrada no hospital as 13:50 e ás 14:13 o Pedro nasceu!!!
Será que foi rápido???

SONY DSCFui pra sala de recuperação era umas 15:30, 16:00 eu acho.
Me esqueceram lá, só sei que subi pro quarto era umas 20:30 e toda a família lá me esperando, foi quando o Ednaldo arrasado me disse que o Pedro estava na UTI e que o horário de visita era só até as 21:00. Já não dava mais tempo de eu subir para vê-lo.

A janta chegou, família foi embora e quando foi umas 23:30 ligaram no quarto, era uma enfermeira dizendo que eu poderia subir para ver o Pedro.

A realidade era bem outra do que o médico havia me dito no centro cirúrgico.
Em resumo, Pedro sofreu insuficiência de oxigênio no cérebro, teria que ficar na UTI em tratamento e então, poderiam ficar sequelas, poderia ter uma paralisia cerebral… mas eu só teria alguma informação depois que ele acordasse (SE ele acordasse).
Ele ficaria em procedimento de hipotermia, sedado por 72 horas com a temperatura do corpo baixa (eu colocava a mão nele e ele estava gelado), para preservar o sistema neurológico e os médicos terem tempo para avaliar os sinais vitais dele e só depois disso, os médicos poderiam me falar alguma coisa.

E assim, conto no próximo post sobre os longos dias na UTI.